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Cultura, Consciência e Arte

KID VINIL

 

Kid Vinil em entrevista para  Calyton Melo, da Gazeta Mercantil.

(*) Antes, uma explicação:

Além da admiração pelo trabalho sólido do Kid Vinil, ressalto a importância de jornalistas com o Clayton Melo que, caso raro nos dias de hoje, é um jornalista profissional que vai atrás da notícia. Como assessor de comunicação, pautar o cara não é fácil. Ele, sim, tem critério. Mas quando a gente consegue, vale mais que estampar no impresso: vale o peso da informação com qualidade transmitida por um excelente profissional do jornalismo brasileiro.

A conexão digital do DJ Kid Vinil

São Paulo, 11 de Maio de 2009 – Em 1978, um rapaz chamado Antonio Carlos, funcionário da gravadora Continental, esteve pela primeira vez em Londres. Ficou fascinado com a efervescência da cena punk inglesa, embalada por bandas como The Clash e Sex Pistols. Ao voltar para São Paulo, seguiu o lema dos punks ("faça você mesmo") e montou um grupo. Foi por essa época que adotou o nome Kid Vinil e passou a comandar um programa de rock alternativo na rádio Excelsior. Suas andanças pelo underground resultaram, em 1983, num dos conjuntos mais divertidos do rock nacional: o Magazine, que estourou nas paradas com os hits "Eu sou boy" e "Tic Tic Nervoso".

Embora sem os mesmos holofotes daqueles tempos, a banda continua na ativa, movida pelo prazer de tocar. Prazer que Kid Vinil sempre cultivou pelo estudo da história da música, especialmente do rock, o que fez dele uma referência quando o assunto é a evolução do cenário pop.

É com base nessa vivência que Kid Vinil, atualmente blogueiro contratado do Yahoo e do Portal MTV, analisa nesta entrevista as transformações na indústria fonográfica e os reflexos dos novos formatos de distribuição nos hábitos de consumo. "Acho que o independente sobreviverá. Para as grandes gravadoras, a situação é mais complicada, porque ela não pode mais pensar em milhões de cópias", afirma Kid, que, amante da chiadeira das vitrolas, também se aventura pelos mares agora navegados de iPods, blogs e podcasts.

Gazeta Mercantil – Além de ter uma longa trajetória como DJ, músico e pesquisador, você é responsável por uma das maiores coleções do Brasil, com cerca de dez mil CDs e dez mil discos de vinil. Qual sua opinião sobre a digitalização da música?

Nunca tive nada contra. Adaptei-me a essa realidade. Faço podcasts, vou ao MySpace e tenho iPod. Não sou um radical. Todos os formatos são válidos. A mudança tecnológica faz parte da vida do ser humano.

Gazeta Mercantil – Você acredita que hoje, com a digitalização, a música tenha se tornado descartável?

Exato. Há coisas que entram por um ouvido e saem pelo outro. Eu mesmo me questiono. Puxa vida, ouvi tal banda, era tão legal, mas aí já passei para outra. Não existe uma longevidade. O disco do ano não será mais lembrado no ano que vem. A internet, com a possibilidade de as pessoas fazerem download de tudo, acelerou esse processo. Antes, havia a luta para conseguir um disco. Então ele era ouvido várias vezes, degustava-se o disco. Hoje, você baixa, coloca no iPod e pronto. 

Gazeta Mercantil – O CD e o vinil tinham o poder de tornar a música perene?

Por causa do fenômeno do download, outro dia me perguntaram qual a importância, no futuro, de um disco com doze faixas. O artista continuará a lançar uma obra completa, baseada num conceito, como sempre foi feito? É esse conceito de um trabalho contido no disco que está se perdendo. Mas ele é importante. Refiro-me ao pensamento que vai desde a capa, o enredo, as doze faixas guardam uma relação entre elas. Há uma história por trás daquilo. Com a era do download, quando as pessoas não valorizam mais com o conceito, como será no futuro? Essa é uma questão que está na minha cabeça. Até agora, tudo bem. As bandas ainda se preocupam com isso. Não sei se no futuro será assim. Acho isso meio perigoso, porque vai tornar a música mais descartável.

Gazeta Mercantil – Quais são as perspectivas para as gravadoras?

Acredito muito no mercado independente. No exterior, tudo parece que correu para esse segmento, principalmente as bandas independentes que estavam nas grandes gravadoras. É o caso do Sonic Youth (dos EUA), que deixou a gravadora Geffen e foi para o selo Matador Records. Esse povo independente tem noção de que a venda de discos, para eles, não significa tanto. Ele faz prensagem limitada, de mil cópias, e pensa de um modo diferente da grande gravadora. Para essas bandas, o disco é um cartão de visitas. Não é ali que elas ganham, mas sim nos shows. Por isso acho que o independente sobreviverá. Para as grandes gravadoras, a situação é mais complicada, porque elas não podem mais pensar em milhões de cópias. Ainda existem exceções, como os EUA, um mercado relativamente aquecido, embora não se saiba até quando. Há quem ainda venda bem por lá. Como o poder aquisitivo é alto, o americano pode se dar ao luxo de comprar CD. Mas as gravadoras grandes enfrentam esse problema, principalmente no Brasil.

Gazeta Mercantil – Como você avalia a parceria das gravadoras com operadoras de telefonia, para que os álbuns sejam lançados pelo celular?

É uma forma para as gravadoras ganharem grana. Como a venda de discos não é mais como era antes, elas precisam encontrar caminhos alternativos. Hoje o dinheiro está na mão das empresas de telefonia, e as gravadoras vão atrás. Há companhias que têm rádio, como a Oi. Nota-se que a programação é feita com as gravadoras. Tudo o que toca ali é dinheiro da indústria fonográfica. É uma forma também de ampliação de receitas para as empresas de telecomunicações.

Gazeta Mercantil – Com o enfraquecimento do modelo tradicional da indústria fonográfica, que alternativa de negócios pode surgir no lugar? Os selos menores podem ser favorecidos?

Sim. A tendência é pensar pequeno em termos de gravadoras. Como está tudo liberado para downloads, a pessoa não adquire mais tantos discos como tenho aqui em casa (rs).

Gazeta Mercantil – A cultura do colecionador pode ser o combustível para o mercado de discos, ainda que de modo bem segmentado?

É essa cultura dos independentes que está salvando a indústria lá fora. Mesmo esse resgate do vinil é algo para apreciadores, fãs.

Gazeta Mercantil – Num ambiente em que as pessoas têm acesso a todo o tipo de música quando e da forma que quiserem, como ficam as emissoras musicais de FMs?

Com as mudanças provocadas pelos novos formatos – podcasts, rádios on-line -, elas perdem terreno. O número de ouvintes de rádio caiu muito. Não escuto mais ninguém falar "estou ouvindo determinada canção no rádio". Antes, havia essa referência. Hoje, elas ouvem no MySpace, baixam da rede. Daí é possível concluir que o rádio já não tem o papel de divulgar. Ele está aí, mas também corre o risco de acabar. Quer dizer, acabar não vai. O rádio se segmentou. As pessoas ouvem as emissoras especializadas em notícias, como CBN e BandNews – essa foi uma bela sacada. Musicalmente, pode-se ouvir no carro. Mas a FM perdeu muito porque hoje há outras opções.

Gazeta Mercantil – Você participou, como jornalista e vocalista da banda Magazine, da chamada geração anos 1980 no Brasil, que culminou na explosão do rock nacional. Qual sua avaliação sobre aquele período?

O punk e a new wave tinham chegado aqui, e assim tivemos uma geração interessante na década de 1980. As gravadoras e a mídia abriram as portas. Caso contrário, não teria havido movimento nenhum. As gravadoras perceberam que havia uma juventude que poderia comprar discos. O setor enfrentava dificuldades na época, porque a MPB havia ficado estranha, velha e sofisticada demais. Não gerava a receita que as empresas precisavam. A indústria fonográfica buscava uma música imediata, que tocasse no rádio, fosse para a TV e vendesse discos. O rock que aparecia naquele momento proporcionava isso. E vinha a calhar para uma juventude pós-ditadura que queria se divertir e não era engajada. Assim surgiram várias danceterias, todo mundo querendo viver um pouco mais a vida e esquecer os anos ruins do militarismo.

Gazeta Mercantil – E hoje? Você identifica algum movimento de juventude?

Se formos comparar, não existe nenhum. Hoje o movimento é a molecada ligada na era digital. É o movimento do iPod (rs).

Leia mais em: Gazeta Mercantil

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maio 12, 2009 - Posted by | Uncategorized

1 Comentário »

  1. O Kid Vinil teve uma banda anterior, a Verminose, mais punk, mas tambem pendendo para o bom humor. Ele, + Luis Carlos Calanca ( Baratos Afins), + Ed Motta, pra não falar nos pesquisadores e músicos de gerações anteriores ( Sergio Cabral, Aldir Blanc…) são os grandes guardiões dos LPs no Brasil… grandes caras e visionários. Eu não tenho nada contra as novas tecnologias, mas contra a cultura do descartavel, sim! essa cultura uma hora pede arrego – já os LPs permanecem, como os livros e os gibis antigos.em tempo: li nessa semana sobre o enterro do Raul Seixas… entre os poucos artistas que foram ao féretro, Kiko Zambianchi, Zé Geraldo e….Kid Vinil, claro.Marcos Massolini

    Comentário por Marcos Massolini | maio 12, 2009 | Responder


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