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Cultura, Consciência e Arte

RELENDO TOM JOBIM – HISTÓRIA 2

Disco ‘secreto’ de Tom Jobim afinal aparece


Um pesquisador paulistano localiza `Brazilian Mancini’, o LP que Jobim gravou em 1965 nos Estados Unidos, tocando violão com o pseudônimo de Tony Brazil

 


Todos os pesquisadores que, nos últimos anos, têm se empenhado em levantar a discografia de Antônio Carlos Jobim, esbarraram num problema: um misterioso LP que Tom dizia ter gravado como violonista em Los Angeles em meados dos anos 60, como acompanhante do pianista de jazz Jack Wilson – no qual, em vez de ser apresentado como a estrela do disco, ele aparecia nos créditos com o pseudônimo de Tony Brazil. O próprio Tom gostava de contar a história, sem fornecer maiores detalhes sobre o disco, mas dava a entender que essa tinha sido uma das agruras de seus primeiros tempos nos EUA. “Para o americano, o brasileiro é o latin lover”, ele dizia, “e latin lover tem de tocar violão.”

 

 
Aliás, foi um dos motivos pelos quais, no famoso disco com Frank Sinatra, em 1967, Tom também tocaria violão, não piano, embora o violão estivesse longe de ser o seu primeiro instrumento.

 


Seja como for, seu LP com Jack Wilson continuava fora das discografias porque ninguém parecia saber o título, o nome da gravadora ou quem mais tocava nele. Eu próprio nunca o tinha visto e muito menos ouvido. Mas, há poucas semanas, um implacável pesquisador paulistano da bossa nova, Sérgio Ximenes, matou a charada. Ximenes, de 50 anos, é consultor de tecnologia da informação. Trabalha em grandes projetos para o sistema financeiro, em São Paulo e Brasília, e passa as horas de folga a bordo de seu site. que tem se revelado uma inestimável fonte para quem queira localizar as arcas perdidas da bossa nova. Mas, no caso do disco de Tom, foi o acaso que o ajudou.

 


No começo do ano, Ximenes foi procurado pela americana Barbara Major, cujo site  é dedicado – como o nome indica – ao organista e arranjador brasileiro Walter Wanderley (1932-1986). A pedido de Barbara, ele lhe forneceu a vasta discografia nacional de Wanderley. Em troca, ela lhe passou a não menor produção americana do organista (com o que ambos fecharam a discografia de Walter Wanderley) e ofereceu-se para procurar-lhe outras agulhas no palheiro. Ximenes lembrou-se do LP “secreto” de Tom e deu a Barbara a única informação de que dispunha (tirada do livro de Helena Jobim, Antonio Carlos Jobim – Um Homem Iluminado): a de que se tratava de um disco com canções de Henry Mancini.

 

 

Barbara pôs Ximenes em contato com um pesquisador de Mancini, Mike Newcomb, que trabalha para a Nasa no projeto Challenger. E Newcomb, claro, tinha o disco: Brazilian Mancini, gravado em 1965 pelo obscuro selo Vault, de Los Angeles. Era Mancini em bossa nova e os músicos incluíam Jack Wilson ao piano, Roy Ayers ao vibrafone, os brasileiros Sebastião (Tião) Neto ao contrabaixo e Chico Batera à bateria – e, como “artista convidado especial”, segundo a capa, um desconhecido Tony Brazil ao violão. A surpresa maior foi a de Newcomb, ao saber que Tony Brazil era simplesmente Antônio Carlos Jobim. E, então, explicou-se por que esse LP ficava oculto por elipse nas discografias de Jobim: porque, assim como os aviões que voam baixo não são acusados pelo radar, um disco inteiro só com canções de Mancini não teria como ser percebido pelos pesquisadores de Tom, mais habituados a trabalhar com discos contendo as canções de sua autoria.

 


Ximenes pediu a Newcomb que lhe mandasse uma fita e uma xerox da capa do LP, mas o generoso Newcomb fez melhor: despachou-lhe via correio o próprio LP. E, com isso, veio à tona no Brasil um exemplar do disco em que Tom, ao violão, forma com os grandes Tião Neto e Chico Batera uma delicada, mas poderosa sessão rítmica, interpretando clássicos de Mancini como Days of Wine and Roses, Mr. Lucky, Sally’s Tomato e seis outros. Donde, quem quiser completar sua discografia de Jobim, já pode agora anotar: Jack Wilson Plays Brazilian Mancini, Vault 1001, 1965.

 


Não é um disco de interesse apenas histórico. É também um belo disco. Wilson, então com 29 anos, era um pianista respeitado na Costa Oeste e impressionou o próprio Tom por sua técnica. O vibrafonista Roy Ayers, de apenas 25, era um discípulo de Milt Jackson. Praticamente não há solos de Tom, mas sente-se a leveza de seu dedo em vários arranjos. Por causa da formação (piano-vibrafone-violão-baixo-bateria), o ouvinte pode ser levado a pensar em George Shearing, mas a base rítmica brasileira não permite a menor dúvida: trata-se de um disco “de bossa nova”, mesmo que com repertório americano e gravado nos EUA – mais “bossa nova”, de fato, do que o jazz envergonhado que muitos trios brasileiros, na mesma época, estavam gravando por aqui.

  


Ao contrário do que Tom também dava a entender, não foi para pagar seu aluguel em Los Angeles que ele aceitou o convite de Tião Neto para tomar parte no disco de Jack Wilson. Brazilian Mancini foi feito no primeiro semestre de 1965, já durante o seu contrato com a Warner (na qual ele gravaria, em seguida, The Wonderful World of Antonio Carlos Jobim, com arranjos de Nelson Riddle) e no auge de suas apresentações no programa de TV do cantor Andy Williams. O dinheiro era mixo: Jack Lewerke, dono da Vault, só podia pagar-lhe a tabela – US$ 70 por sessão. O disco foi feito em três sentadas, o que lhe valeu, portanto, US$ 210. Tom topou participar do disco por amizade a Tião, mas deixou claro que não poderia usar seu nome. O pseudônimo Tony Brazil foi uma idéia do próprio Tião Neto. E, como sempre aconteceu, Tom não se limitou a tocar violão em algumas faixas: palpitou nos arranjos, participou do disco inteiro e, se pudesse, teria feito ainda mais.

  


Na verdade, ele sempre foi assim. Em seus últimos anos de vida, ao ser pressionado por cantoras a fazer uma “pequena participação”, cantando junto numa faixa de seus discos, Tom passava semanas relutando – apenas para, em seguida, empolgar-se e, sem crédito, palpitar ou contribuir com arranjos para discos inteiros, em prejuízos de seu trabalho. Sérgio Ximenes ainda não terminou de levantar o número de discos alheios em que Tom fez essas “pequenas participações” – pelas últimas contas, estavam em mais de 40!

  


Brazilian Mancini não existe em CD no mercado e sabe-se lá se um dia existirá – que fim terá levado o selo Vault? Mas outro LP americano anterior, gravado em 1964 e também com presença de Tom, Soft Samba, do vibrafonista Gary McFarland, pela Verve, saiu em CD no ano passado em Nova York. Contém duas participações oficiais de Tom ao violão: na eterna La Vie en Rose e na então novíssima I Want to Hold Your Hand – yeah, yeah, yeah. Digo “oficiais” porque tudo indica que o violão indisfarçavelmente bossa nova de todo o disco soa como Tom, bem diferente dos solos de Kenny Burrell, a quem é atribuído o violão nas outras dez faixas.

  


O radialista Johnny Magnus, autor do texto da contracapa de Brazilian Mancini – escrito numa época em que o mercado americano estava inundado de bossa nova gravada por americanos -, faz uma observação de interesse para os que, hoje, 200 anos depois, ainda discutem a nacionalidade da bossa nova: “Essa forma de expressão, tão encantadora e sensível quanto profundamente rítmica”, diz ele, “originou-se no Brasil e dos brasileiros – e eles a fizeram popular em toda parte. Nós, seus vizinhos, apenas a adotamos como nossa – e o que pode ser mais americano do que isso? Caramba, isso é tão americano!”

  


Discos como Brazilian Mancini e Soft Samba apontavam para uma saudável direção da música popular – capaz de combinar bossa nova, jazz, Mancini, os Beatles e quem mais aparecesse, numa fusion tão musicalmente rica quanto agradável, sensual e adulta. Mas, a partir de 1965, como se sabe, esses atributos deixaram de ter importância para a música popular.


Texto: Ruy Castro – O Estado de S.Paulo. (04/03/2000)

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agosto 2, 2010 - Posted by | Uncategorized

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